Sonetos Selecionados

A Vida é uma Ilusão...

 

A vida é uma ilusão que se completa,

Pedaço por pedaço a cada instante;

Aos poucos, vem nos versos de um poeta,

Vem lenta, vem dispersa, vem constante...

 

A vida as vezes vem fazendo festa

Vem rápida, girando, vem dançante;

Certeira e pontiaguda como seta

No peito dos quixotes delirantes...

 

Ligeira ou lentamente a vida passa

E o tempo, qual criança, por pirraça,

Nos leva segurando pelas mãos...

 

A vida que foi feita de momentos

E agora se faz sonho solto ao vento

Dissipa-se nos braços da razão!

 

Ciro di Verbena

Canção das Horas

Vou caminhando pela vida afora,
Frágil criança de desejos tantos
E no acalanto da canção das horas
Vivo da vida apenas seus encantos!...

 

Sinto as delícias no prazer do agora
Vivendo a gloria de cantar meus cantos
E se minha alma por instantes chora
São meus desejos transbordando prantos!

 

Vou pelo mundo a desvendar caminhos
Colhendo flores, pisando os espinhos,
Seguindo a trilha que me foi traçada...

 

E ando feliz sorvendo a minha sina
Pois desta vida frágil, pequenina,
Ao fim de tudo ninguém leva nada!

Ciro di Verbena

Medo

 

Como vencer o medo intermitente,
O medo de sorrir e de viver,
O medo de sonhar intensamente,
A cada vez que um novo sol nascer?!...

 

O medo a perdurar sempre latente
De um monstro pequenino a nos roer
Primeiro o coração, depois, a mente,
Um ser qual não nos cabe o dom de o ver...

 

Talvez o modo certo e mais preciso
Seja a magnitude de um sorriso
Na exata sensatez de um ser humano...

 

Que a força desse vírus invisível
Possa fazer enfim tornar possível
Reverberar no olhar o quanto amamos!

 

Ciro di Verbena

Caminhos...

 

Andei perdido em tolos pensamentos,

Buscando no horizonte uma chegada,

Marcando o espaço com meus passos lentos,

Escravo de minha alma enamorada...

 

Fui serviçal do amor, de um sentimento,

Que mesmo sendo tudo não é nada;

Às vezes, dia cinza e sonolento,

Depois, noite feliz e enluarada!

 

Se escravizado assim, andei perdido,

Jamais soube sentir-me arrependido

Por ter te amado assim mais do que pude...

 

Se eu me perdi nesse caminho escuro

Também achei o Éden que procuro

E em nosso amor a eterna juventude!...

 

Ciro di Verbena

 

Morrendo de Amor...

 

Não se morre de amor rapidamente

Feito luz que se apaga na varanda,

Morre-se aos poucos, sempre, lentamente,

De uma morte sutil, pausada e branda...

 

Nem se morre de amor completamente

Pois que um sopro de vida ainda comanda

Um resto de prazer quando se sente

Da esperança o perfume de lavanda!

 

Ao morrer-se de amor, a vida passa;

A gente nem percebe que a alegria

Caminha sempre ao lado da desgraça!

 

A vida inteira é tola fantasia;

Por mais que se não queira ou que se faça

Morre-se por amor todos os dias!

 

Ciro di Verbena



 

O Poeta é Eterno...

Quando me invade a mesquinhez pequena
É meu dilema sórdido e pulsante,
No mesmo instante em que acontece a cena,
Outro poema nasce delirante!...

 

Vou sobre as asas desse vil poema,
Qualquer esquema é libertário e errante;
A todo instante indiferente ao tema,
Se me envenena o versejar vibrante!

 

Eu vou bebendo esse veneno forte
E minha sorte é que o poeta é eterno;
Fugir do inferno é minha triste sina!

 

Não que eu renegue ou não mereça a morte,
Nem me conforte meu poema terno...
- É que alcançar o etéreo me fascina!...

 

 

Ciro di Verbena
 

Na Dança do Tempo

 

Enquanto eu bailava sob a primavera

O tempo passava depressa por mim,

Levava nos braços o amor que eu quisera

Viver uma história de sonho sem fim!...

 

O tempo, mortal, feito abraço de fera;

Veneno fatal disfarçado em jasmim,

Levava pedaços de minhas quimeras

Meu “Deus”, quem me dera ser feliz assim?

 

Eu não percebi que na dança do tempo

Meus sonhos ao vento fugiam ligeiros

No olhar derradeiro do deslumbramento!...

 

O cheiro de “Adeus” era um tiro certeiro,

E enquanto, faceiro, beijava-me o vento,

Era eu quem, de triste, morria primeiro!...

 

Ciro di Verbena

Na Idade das Flores

 

A noite vencia!...Na doce magia

Qual linda aquarela estampada em brilhantes

Chegava assim bela, tão plácida e fria;

Madona envolvida em lençol de diamantes...

 

Em meio às estrelas um rastro surgia...

Ligeiro sumia nos campos distantes;

Um rastro de luz refletindo poesia:

Intrépido sonho feliz dos amantes!

 

A noite passava sorrindo aos poetas...

Havia um lascivo bailado de amores

E flores sugando o prazer de outro dia!

 

Havia na noite rumores de festas

E o jovem boêmio na idade das flores

Cantava, dançava, fumava e bebia!

 

Ciro di Verbena

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